Zika, déficit de atenção, ciências psicodélicas e capacitação em saúde

O caminho percorrido pelo vírus Zika nas Américas antes da epidemia de 2015/2016, o impacto cerebral do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e as possibilidades terapêuticas do uso de substâncias psicodélicas foram alguns dos principais destaques das pesquisas divulgadas pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino ao longo de 2017. Os resultados foram publicados nas revistas científicas internacionais Nature, The Lancet Psychiatry e Scientific Reports, respectivamente.

Pauta recorrente no noticiário de saúde brasileiro durante a epidemia, a zika continua sendo objeto de pesquisa da comunidade científica brasileira, que procura desvendar questões relativas aos seus efeitos sobre o cérebro humano em desenvolvimento e responder perguntas sobre como e por que o vírus se espalhou rapidamente pelas Américas. Uma equipe internacional de cientistas mapeou a presença do Zika no continente no período que precedeu a epidemia, a partir da análise genética do vírus encontrado em amostras de sangue de pacientes e de mosquitos.

No Brasil, o estudo foi liderado pelo médico Fernando Bozza, coordenador de pesquisa em medicina intensiva do Instituto D’Or e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz. O trabalho teve, ainda, a participação de instituições em Porto Rico, Honduras, Colômbia, Estados Unidos e ilhas do Caribe, e concluiu que o Zika circulou pela região quase um ano antes de os primeiros casos serem notificados. “Esse resultado reforça a importância da vigilância epidemiológica ativa acoplada a técnicas moleculares de diagnóstico e sequenciamento genético, de forma que situações como essa sejam percebidas antes de levarem a epidemias”, destacou Bozza por ocasião da publicação do artigo, em junho passado.

 

Avanços em neurociência

Outro destaque de 2017 foi a descoberta de que estruturas cerebrais importantes para a regulação de emoções, motivação e sistema de recompensa estão subdesenvolvidas nos pacientes com TDAH, o que pode explicar alguns dos sintomas do transtorno. Esta foi a conclusão de um estudo do consórcio internacional ENIGMA , que envolveu pesquisadores de 23 centros de pesquisa em países como Brasil, Estados Unidos, Holanda e Austrália, entre outros. A equipe coletou imagens de ressonância magnética do cérebro de mais de 3 mil pessoas, incluindo pacientes portadores de TDAH e pessoas saudáveis, no maior estudo já realizado sobre o tema.

Os resultados reforçam a importância do correto diagnóstico e acompanhamento do transtorno. “O TDAH não é uma doença inventada, e precisa do tratamento médico adequado”, ressalta o psiquiatra Paulo Mattos, coordenador de pesquisa em neurociência do Instituto D’Or e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos autores do artigo, divulgado em fevereiro.

Também na área de neurociência, o instituto publicou um estudo experimental acerca dos efeitos do 5-MeO-DMT, substância psicodélica da família das dimetiltriptaminas, sobre minicérebros – estruturas desenvolvidas em laboratório para simular os efeitos de substâncias sobre o cérebro humano. O composto, produzido pelo sapo da espécie Bufo alvarius, é semelhante a substâncias que compõem o chá ayahuasca e tem potencial terapêutico para melhorar o funcionamento de neurônios e reduzir processos inflamatórios que possam levar à degeneração das células.

No futuro, o 5-MeO-DMT poderia ser utilizado no tratamento de transtornos mentais como o transtorno do estresse pós-traumático. “Nossos resultados ratificam o potencial clínico de substâncias banidas por questões políticas e que merecem total atenção da comunidade médica e científica”, finaliza o neurocientista Stevens Rehen, diretor de pesquisa do Instituto D'Or e pesquisador da UFRJ. O trabalho, divulgado em outubro, foi realizado em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e a Universidade de Campinas.

Ao todo, os pesquisadores do Instituto D’Or publicaram 80 estudos científicos em 2017, abrangendo diversos temas das ciências biomédicas, como sepse, infecções virais, diagnóstico por imagem e câncer.


Capacitação na área da saúde

Além das atividades de pesquisa, o Instituto D'Or teve grandes conquistas na área de ensino em 2017: iniciou sua primeira turma de doutorado em Ciências Médicas e abriu 30 novas turmas em cursos de pós-graduação e extensão. No total, mais de 500 novos alunos passaram pelo instituto no ano passado.

A instituição tem como objetivo suprir uma demanda do mercado por capacitação médica de qualidade. Por isso, investe numa relação estreita entre ensino e prática: o corpo docente dos cursos é formado por médicos especialistas que atuam nos hospitais da Rede D’Or São Luiz, além de desenvolver atividades de pesquisa.

 “Nossos cursos oferecem desde conhecimentos gerais - com atividades teóricas e práticas - até uma abordagem mais temática de cada especialização”, explica Arnaldo Prata, diretor de ensino do Instituto D'Or.

Ainda em 2017, o instituto obteve aprovação do Ministério da Educação para criar uma faculdade de Ciências Médicas e iniciou as obras que transformarão o hospital Beneficência Portuguesa em um complexo de assistência médica, ensino e pesquisa. “Nossos alunos terão acesso a parcerias com os maiores centros formadores do mundo. Com isso, objetivamos a melhoria contínua no atendimento hospitalar em todo o estado”, aposta Marcelo Pina, diretor-executivo da Rede D’Or São Luiz.

CONFIRA O INFOGRÁFICO COM OS PRINCIPAIS DESTAQUES DE 2017.

editado em 05/01/2018 para acrescentar as informações dos parágrafos finais.