Reserva cognitiva: aliada contra demência

Num quadro de doença neurológica, quanto maior for o dano cerebral sofrido, maior será o impacto sobre a cognição do paciente, certo? Errado! Neurocientistas vêm investigando a capacidade que o cérebro tem de suportar danos sem apresentar sinais como perda de memória ou dificuldade de linguagem. É a chamada reserva cognitiva, que foi tema de palestra da psicóloga Laiss Bertola, da Universidade Federal de Minas Gerais, no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino.

A teoria da reserva cognitiva veio à tona no início dos anos 1990, a partir das observações do neuropsicólogo Yaakov Stern, da Universidade Columbia (EUA). Ao estudar os efeitos do acidente vascular cerebral (AVC) sobre a cognição, Stern identificou que nem sempre as maiores lesões cerebrais davam origem a quadros de comprometimento cognitivo mais acentuado, o que intrigou os pesquisadores. O conceito de reserva cognitiva foi criado para explicar a capacidade cerebral em resistir a processos de demência diante de uma patologia cerebral estabelecida.

Nos anos seguintes, centenas de pesquisas foram desenvolvidas com o intuito de desvendar os mecanismos por trás da reserva cognitiva, que, até então, havia sido observada apenas em pacientes pós-AVC. Atualmente, sabe-se que o mesmo fenômeno ocorre em outras doenças, como esclerose múltipla, epilepsia, Alzheimer e alguns transtornos psiquiátricos.

Medir com exatidão a reserva cognitiva, porém, permanece um desafio. Para contornar o problema, cientistas no mundo inteiro desenvolveram aproximações ou medidas indiretas. Uma das medidas mais estudadas é a escolaridade: pesquisas apontam que, quanto maior a escolarização, maior a quantidade de reserva cognitiva de um paciente; portanto, menores as chances de apresentar um quadro de comprometimento cognitivo frente a uma patologia cerebral. Outras medidas sugeridas como indicadores de reserva cognitiva foram quoeficiente de inteligência (QI), nível de leitura e alfabetização e demanda cognitiva ao longo da vida adulta.

Embora difícil, a medida da reserva cognitiva pode auxiliar o atendimento na área da neuropsicologia, pois a progressão das doenças é diferente de acordo com essa característica. Pacientes com alta reserva cognitiva, por terem alta resiliência, demoram para procurar acompanhamento especializado, em média sete anos mais do que os pacientes com baixa reserva cognitiva. Assim, demoram mais também para receber um diagnóstico, o que atrasa as intervenções e possíveis tratamentos. “É claro que, em um contexto em que não há cura nem boas soluções, ganhar sete anos de vida com boa cognição é uma vantagem”, destacou Bertola. No entanto, o outro lado da moeda é que, paradoxalmente, pacientes com alta reserva cognitiva atingem estágios mais avançados de demência com maior rapidez. Trocando em miúdos, o cérebro suporta ao máximo o início dos sintomas, mas, uma vez iniciados, eles evoluem rapidamente.

 

O futuro das pesquisas

Existem muitas questões em aberto sobre as características da reserva cognitiva. Uma delas é onde ela se localiza em nosso cérebro. Alguns trabalhos apontam que essa reserva poderia estar em áreas frontais, outros sugerem que ela é abrigada em regiões cerebrais posteriores. Mas a hipótese mais aceita é a de que a reserva cognitiva não esteja localizada em uma única área cerebral, e sim espalhada por todo o órgão. Segundo Bertola, a ideia faz sentido porque as atividades diárias comprometidas pelas demências são complexas e envolvem inúmeras áreas cerebrais.

No futuro, cientistas deverão também desenvolver novas medidas de reserva cognitiva capazes de suprir as falhas daquelas usadas atualmente. Por exemplo, utilizar o tempo de escolarização como medida não parece adequado para a população brasileira, em que os índices de escolaridade são muito baixos, mas os indicadores de resiliência cognitiva, não. Para a palestrante, este é um exemplo de como a neuropsicologia é influenciada pelos contextos socioculturais de um país, o que impede que seja criada uma maneira global de explicar o funcionamento da reserva cognitiva.

Outro tema promissor é como estimular a reserva cognitiva ao longo da vida, inclusive na terceira idade. Atividades com alta demanda cognitiva, como cursos acadêmicos ou jogos, podem ser grandes aliados nessa tarefa. “Nunca é tarde para promover a reserva cognitiva”, aposta Bertola.

(créditos da imagem:  katemangostar / Freepik)