Órgão em transformação

Um fígado de um recém-nascido não é uma miniatura de um fígado adulto: pelo contrário, o perfil das células que o compõem é completamente diferente, indica estudo desenvolvido no Centro de Biologia Gastrointestinal da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O coordenador do trabalho, Gustavo Menezes, esteve no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino na última quinta-feira (29/3) para apresentar seus resultados, ainda inéditos na literatura especializada.

O fígado é um órgão vital que desempenha inúmeras funções. Uma delas é retirar da circulação sanguínea microrganismos invasores, como bactérias, impedindo que se espalhem pelo resto do corpo. Embora o fígado adulto seja bem conhecido pela ciência – inclusive por causa da importância epidemiológica de doenças hepáticas causadas pela má alimentação, como a doença gordurosa hepática –, pouco se estudou sobre o fígado de crianças e bebês.

Sabe-se, por outro lado, que o comprometimento do fígado pode levar a complicações causadas por infecções, como é o caso da sepse ou infecção generalizada. O problema atinge pessoas de todas as faixas etárias, mas é especialmente grave entre crianças e representa, no Brasil, a terceira maior causa de morte antes dos cinco anos. Em cada 100 recém-nascidos no país, sete morrem de sepse. “Em parte, isso acontece porque ainda não entendemos como as bactérias escapam do sistema imunológico convencional”, relatou Menezes.

Para entender como um neonato reage a infecções bacterianas, o cientista criou uma plataforma de estudo da resposta imunológica em camundongos recém-nascidos. Montou seu laboratório em Belo Horizonte com equipamentos para diferentes tipos de análises celulares, incluindo um microscópio confocal adaptado com uma mesa de cirurgia, onde é possível observar as células do fígado de animais vivos.

O passo seguinte foi infectar camundongos de diferentes idades (de poucos minutos a oito semanas de vida) com a bactéria Escherichia coli, uma das principais responsáveis pela sepse. Quando a inoculação foi feita em neonatos, entre 40% e 60% dos animais morreram em apenas um dia. Já em camundongos um pouco mais velhos, a mortalidade foi drasticamente reduzida.

Gustavo Menezes, da UFMG

“Pelo menos em camundongos, a resposta imunológica para lidar com a infecção evolui muito rapidamente”, contou Menezes. Segundo o pesquisador, o fígado dos animais recém-nascidos, embora consiga reter a E. coli, não tem a mesma capacidade de matar bactérias que o fígado mais desenvolvido.

 

Desmame e maturação

Os estudos da equipe mineira mostraram que os macrófagos – células do sistema imune abundantes no fígado e capazes de matar bactérias – dos neonatos, por algum motivo, não conseguem eliminar os microrganismos, que acabam se multiplicando e espalhando pelo corpo.

Em análises da expressão gênica nas células hepáticas dos camundongos, os cientistas encontraram uma pista importante para explicar o problema: embora os neonatos já apresentem expressão de parte dos genes relacionados ao sistema imune, outros genes estão “desligados” nessa faixa etária. “Dois dos principais genes relacionados ao reconhecimento de bactérias não são expressos antes de completar a primeira semana de vida”, disse o coordenador.

Avaliando o perfil celular do fígado de camundongos em diferentes idades, o cientista descobriu ainda que o tipo de célula que forma o fígado dos recém-nascidos é muito diferente daquele encontrado nos adultos. “O fígado do neonato é formado, em sua maioria, por granulócitos, e praticamente não tem linfócitos – essas células só aparecem na terceira semana de vida”, explica.

Nos camundongos, a terceira semana de vida coincide com o momento do desmame, em que o animal deixa de se alimentar de leite materno. Não por acaso, seu organismo aumenta também a expressão de genes relacionados ao metabolismo de lipídeos, que, embora abundantes no leite, são mais raros na dieta pós-desmame. Conclusão: o período marca, ao mesmo tempo, a mudança no perfil metabólico e a maturidade do fígado.

Em outro experimento, a equipe desmamou precocemente um grupo de camundongos e verificou que todos os animais anteciparam a mudança de perfil hepático poucos dias após a mudança na dieta. “Nosso estudo sugere que, quando você desmama uma criança prematuramente e começa a alimentá-la com leite em pó, você não está apenas mudando a dieta daquela criança, mas pode estar interferindo no perfil do fígado dela”, concluiu Menezes. “Ainda não sabemos quais são os impactos disso no longo prazo”.

A descoberta de que o fígado de recém-nascidos tem características muito diferentes do órgão amadurecido dos adultos tem uma série de possíveis implicações. Por exemplo, talvez os exames que avaliam o bom ou mau funcionamento do fígado adulto não sejam os mais adequados para realizar o mesmo em bebês. “Assim, os ensaios bioquímicos baseados em metabolismo hepático têm que ser reavaliados”, sugeriu o pesquisador.