Olhar multidisciplinar sobre o câncer

Em palestra no Instituto D’Or, patologista destaca a importância da integração multidisciplinar para o melhor diagnóstico e tratamento de tumores cerebrais pediátricos.

Como integrar o serviço de neuropatologia com outras especialidades médicas? No último dia 29 de novembro, o patologista Felipe Andreiuolo, da Universidade de Cancerologia de Paris, na França, e da Universidade de Bonn, na Alemanha, ministrou uma palestra no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), onde apresentou alguns de seus estudos e refletiu sobre como unir diferentes profissionais em torno do diagnóstico de tumores cerebrais.

Não são apenas neurônios que compõem o cérebro. Outro importante tipo celular do sistema nervoso são as células da glia, que, entre outras funções, atuam para dar suporte ao funcionamento neural. Esse tipo de célula é responsável pelo terceiro tipo de tumor cerebral mais frequente em crianças, os chamados ependimomas.

Felipe Andreiuolo em palestra no IDOR

No enfrentamento desses e outros tumores, os médicos tentam prever como será a evolução do paciente que possui aquela doença. “Para os ependimomas, a avaliação prognóstica baseada nas características histológicas sempre foi controversa, pouco capaz de dizer se o tumor é benigno ou maligno”, afirmou Andreiuolo. É aí que entra a patologia, associada a outras modalidades médicas, como neurologia e radiologia, por exemplo. De acordo com o especialista, essa integração permite oferecer um melhor diagnóstico e tratamento ao paciente.

Em um dos trabalhos desenvolvidos por Andreiuolo, os pesquisadores buscaram traços da presença de neurônios em diferentes tipos de ependimomas. A lógica por trás de procurar neurônios em tumores gliais está no fato de que as células que dão origem às gliais – chamadas de glia radial – também podem dar origem a neurônios. Os cientistas descobriram que a presença de neurônios nesses tumores pode ajudar a entender a doença, e permitiu aos especialistas distinguir os tumores quanto a sua localização no cérebro e estimar a evolução do paciente após o tratamento cirúrgico. “Por se tratar de um tumor com evolução muito longa, análises de sobrevida são muito importantes”, destacou o palestrante.

Outro problema em torno dos ependimomas é a alta prevalência de recidivas, que podem chegar a 50% dos casos. Para entender que fatores podem ser responsáveis pela recorrência dos tumores, Andreiuolo participou de estudo que comparou as características moleculares entre as recidivas e o tumor inicial. Como resultado, foi observado que existem algumas proteínas diferencialmente desreguladas nos tumores e em suas recidivas, apontando novos alvos para tratamentos futuros.

Integração multidisciplinar

Um dos grandes desafios do profissional que atua na área da oncologia é ter a visão completa da doença: apresentação clínica, características epidemiológicas e suas bases celulares e moleculares. Andreiuolo conta que a oportunidade de transitar entre diferentes especialidades dentro de um hospital é um privilégio e um diferencial na carreira do profissional da área.

Andreiuolo passou por centros europeus de referência no diagnóstico de câncer, e compartilhou sua experiência internacional a respeito da integração entre diferentes profissionais em torno deste tema. Na Universidade de Bonn, o especialista faz parte do grupo que já estudou mais de 60 mil casos de tumores e que, por ano, recebe mais de 2 mil novos casos. Em Paris, onde passou grande parte de sua carreira, Andreiuolo contou que eram frequentes as reuniões clínicas sobre casos, que reuniam os principais especialistas da cidade, incluindo patologistas, neurocirurgiões, radioterapeutas e radiologistas, entre outros. Segundo o pesquisador, nesses espaços, os profissionais discutiam os casos e recebiam orientações sobre como seguir em uma linha de investigação até chegar ao diagnóstico. “É muito enriquecedor trabalhar em colaboração dessa forma”, completou.