Olhar crítico sobre a mortalidade

Pesquisadores trabalham no desenvolvimento de metodologias para comparar dados sobre sepse e mortalidade hospitalar em diferentes países.

A sepse, também conhecida como infecção generalizada, é uma preocupação nas unidades de terapia intensiva (UTIs) do mundo inteiro: acomete, anualmente, 30 milhões de pessoas, das quais cerca de um quinto acaba morrendo. Mas o problema não atinge da mesma forma todos os países. Um estudo comparativo realizado em hospitais do Brasil e da Inglaterra mostrou que, apesar de os dois países apresentarem índices semelhantes de mortalidade hospitalar (41,4% e 39,3%, respectivamente), uma análise específica dos pacientes com sepse revela que o risco de morte por esse problema é maior entre os brasileiros.

O estudo integra o projeto Orchestra, que avalia a importância de fatores organizacionais no atendimento em terapia intensiva e é liderado pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), e se une a um esforço internacional da comunidade científica para criar novas estratégias de combate à sepse e redução de seu impacto, em resposta ao alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) que considerou a infecção generalizada uma prioridade global em saúde.

Publicado na revista Critical Care Medicine, o novo artigo tem como principal objetivo encontrar formas de comparar dados sobre sepse em diferentes países. Segundo o médico intensivista e pesquisador Jorge Salluh, um dos autores do estudo, o primeiro passo para permitir a criação de cooperações internacionais para a pesquisa no tema é a adoção de ferramentas capazes de traduzir os achados obtidos em cada país para uma linguagem mundial.

“Um hospital pode ter uma maior mortalidade por sepse simplesmente porque o perfil do paciente internado naquele centro é mais grave. Por outro lado, menor mortalidade nem sempre significa que as estratégias de controle e tratamento da sepse são eficazes naquela instituição”, explica o especialista.

Neste trabalho, os pesquisadores analisaram dados de quase 22,5 mil pacientes internados em mais de 220 UTIs durante o ano de 2013. O objetivo do estudo era analisar as taxas de mortalidade por sepse em pacientes críticos sob a luz do quadro clínico e das características do paciente. Para isso, levou-se em consideração fatores como idade, presença de outras doenças e gravidade dos sintomas, entre outros. “Nessa balança, pesa mais quem é o paciente com sepse do que o diagnóstico em si”, conclui Salluh.

Na amostra avaliada, os perfis dos pacientes internados por sepse eram bem diferentes entre os países: os brasileiros eram mais velhos, tinham mais comorbidades (isto é, complicações adicionais) e pior funcionalidade cotidiana, quando comparados aos ingleses. Por outro lado, na Inglaterra, a presença de pacientes com disfunções orgânicas múltiplas era maior do que no Brasil.

Ambos os países tinham como causa principal de internação a infecção respiratória, problema que levou à morte quatro em cada dez pacientes. No entanto, a hipótese do grupo de pesquisadores era que essa mortalidade não refletia a realidade dos dois lugares. Para tirar a prova, a análise estatística considerou características dos pacientes, como tipo e local da infecção, além do número de órgãos acometidos. Com esses ajustes, observou-se que a mortalidade por sepse era 40% maior no Brasil.

Para Salluh, os achados evidenciam que é preciso que a comunidade científica internacional passe a olhar e divulgar suas análises de mortalidade por sepse de uma nova maneira, sem ignorar o quadro clínico do paciente. O grupo discute, agora, alternativas de padronização das informações coletadas e armazenadas nas diferentes bases de dados de países como Brasil, Estados Unidos, Holanda, Austrália e outros que desenvolvem pesquisas na área.