O que engenheiros podem fazer por um hospital?

Especialistas da Mayo Clinic, dos Estados Unidos, visitaram o IDOR para compartilhar suas experiências sobre a otimização do atendimento médico de emergência e no serviço de radiologia.

Quando se pensa na equipe de um hospital, se pensa, claro, em médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde. Porém, uma visão interdisciplinar pode fazer a diferença na hora de aperfeiçoar o atendimento: é o que contam dois engenheiros contratados pela Mayo Clinic – instituição norte-americana que oferece atendimento médico em clínicas no Arizona, na Flórida e em Minnesota – para otimizar seus serviços e melhorar a experiência dos pacientes. Mustafa Sir e Kalyan Pasupathy estiveram no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) na última terça-feira (16/10) para compartilhar sua experiência com pesquisadores e gestores da Rede D’Or São Luiz.

“A tarefa que recebemos foi melhorar o fluxo de trabalho no atendimento de emergência da clínica em Minnesota, reduzindo os tempos de espera e dando conta do volume crescente de pacientes, mas sem ampliar o staff. Ou seja: missão impossível”, brincou Sir. Ele e sua equipe fizeram um estudo minucioso da rotina do departamento de emergência do hospital durante dois anos, coletando dados sobre os horários de entrada dos pacientes, o tempo que eles permaneciam esperando atendimento ou resultado de exames e os horários de trabalho da equipe de profissionais de saúde.

Notaram, assim, que a chegada dos pacientes começava a se intensificar a partir da metade do dia, mas que o horário de maior concentração do staff médico era somente à noite, quando havia um acúmulo de pessoas aguardando para ser atendidas – esse acúmulo, concluíram, não aconteceria se houvesse mais profissionais no atendimento durante a tarde.

Usando técnicas de aprendizado de máquina e algoritmos para calcular a distribuição ideal da equipe ao longo do dia e considerando dados históricos sobre os horários de pico e o volume de pacientes, Sir e colaboradores fizeram uma proposta de reorganização dos turnos em que médicos e enfermeiros trabalhavam. Em mais um ano de observação após a reorganização, colheram os resultados: sem aumentar o número de profissionais, e lidando com um aumento constante no volume dos pacientes e na complexidade dos casos, o hospital conseguiu reduzir o tempo de espera para o atendimento inicial e para o encaminhamento dos pacientes aos setores adequados. O tempo total de permanência no pronto-atendimento também diminuiu.

Médicos e gestores da Mayo Clinic perceberam a mudança na prática. “O reconhecimento de que nosso trabalho está, de fato, ajudando é algo que aprecio muito”, celebrou Sir. Os resultados positivos encorajaram o hospital de Minnesota a realizar outras pesquisas para otimizar o funcionamento de outros setores além da emergência.

Localização em tempo real

Outra experiência exitosa da Mayo Clinic foi implementar um sistema de localização em tempo real para pacientes, profissionais e equipamentos do serviço de emergência. A novidade funciona como um GPS e serve para descobrir rapidamente onde está certo médico ou certo paciente. O sistema desenvolvido por sua equipe usa ondas de radiofrequência e chips implementados no crachá dos funcionários da emergência ou na pulseira de identificação dos pacientes. Assim, quando uma pessoa chega à emergência procurando por um familiar que deu entrada no serviço algum tempo antes, por exemplo, é possível dizer com precisão onde ele ou ela se encontra.

“Após a implementação do sistema, observamos uma redução de 87% no tempo que se passava procurando pessoas e equipamentos dentro da emergência”, destacou Pasupathy. Ele contou que existem dois dispositivos possíveis para o sistema. O primeiro é passivo, sem baterias, e apenas serve para registro dos locais por onde as pessoas passaram ao longo do tempo. Já o segundo funciona de forma ativa e pode enviar informações – por exemplo, um médico pode fazer um alerta aos seus colegas, indicando que precisa de ajuda em determinado setor. A equipe da Mayo Clinic descreveu a experiência inovadora em artigo na revista Harvard Business Review.

Ainda segundo Pasupathy, o dispositivo pode ser útil também para mapear o contato com pacientes portadores de doenças contagiosas, como varicela, tuberculose e outras. “Podemos rastrear que pessoas tiveram contato com esses pacientes dentro da emergência e, com base em informações específicas sobre cada doença, estimar o risco de contágio”, contou.

Por fim, outro desafio hospitalar atacado pela equipe de engenheiros foi a organização do serviço de radiologia da clínica. Diferentemente do que acontece na emergência, em que todos os pacientes chegam espontaneamente, na radiologia há, ao mesmo tempo, exames agendados e demandas imprevistas. “Isso aumenta a complexidade do problema”, disse Pasupathy. Ao mesmo tempo, a forma como se recebe ou acessa resultados de exames – o tempo que se demora para localizar um resultado, por exemplo – afeta a experiência e a satisfação dos pacientes. “São situações em que engenheiros, informatas e cientistas de dados podem, junto com médicos e enfermeiros, contribuir para a solução de problemas hospitalares”, concluiu Sir.