Nova utilidade para uma velha conhecida

Um exame feito de forma rotineira nas unidades de terapia intensiva (UTIs) pode ganhar nova aplicação e aumentar a chance de sobrevivência de crianças em estado grave internadas nessas unidades. Trata-se da aferição da proteína c-reativa (PCR), um teste barato e amplamente usado para identificar infecções hospitalares. Pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino sugerem que ele possa ser usado, também, como instrumento para guiar o tratamento de crianças com sepse (infecção generalizada).

Produzida pelo fígado, a PCR se eleva rapidamente caso haja algum processo inflamatório no corpo – por isso, atua como biomarcador e, há décadas, vem sendo utilizada pelos médicos para verificar a presença de infecções. “O grande diferencial do nosso estudo foi olhar para a PCR com outros olhos, enxergando o que ela dizia sobre a evolução de pacientes pediátricos graves”, explica a pediatra intensivista Vanessa Soares Lanziotti, doutoranda da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora Instituto D’Or.

No trabalho, a equipe avaliou, ao longo da primeira semana de internação, os níveis de PCR de 103 pacientes pediátricos com sepse internados na UTI de três hospitais cariocas: o Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG), da UFRJ, e os hospitais Rios D’Or e Copa D’Or, da Rede D’Or São Luiz. O objetivo era descobrir se o resultado desses exames tinha alguma relação com o desfecho dos casos. A média de idade dos pacientes foi de dois anos.

 

Repostas mais rápidas

As análises da PCR revelaram diferentes perfis de pacientes. No primeiro grupo, classificaram-se aqueles que respondiam ao tratamento antibiótico com redução da concentração da PCR já nos primeiros dias de internação. No segundo, aqueles que não respondiam ao tratamento medicamentoso, isto é, cuja concentração de PCR não baixava após o início do tratamento ou cuja concentração baixava inicialmente, mas em seguida subia de novo.

Os pacientes do primeiro grupo tiveram mais chance de sobreviver, com taxa de mortalidade de 5,1%. Já os classificados no segundo grupo tiveram taxa de mortalidade de 33%, quase seis vezes maior. Nas crianças cujos índices de PCR caíram inicialmente, mas depois voltaram a subir, a recidiva coincidiu com uma nova infecção hospitalar.

O estudo mostrou que a modificação dos níveis de PCR no sangue é um indicador mais rápido do que o exame clínico dos pacientes pediátricos. Assim, os exames de sangue podem indicar, antes do estado geral do paciente, se é ou não necessário repensar o tratamento, mudando o antibiótico escolhido no início da internação.

“Nossos resultados apontam que, de modo semelhante ao que observamos em pesquisas com adultos, com a PCR conseguimos avaliar a resposta ao tratamento e prever complicações de três a quatro dias antes do que ocorre na prática clínica habitual. Isso reforça o uso desta metodologia para orientar melhor o tratamento de pacientes pediátricos”, destaca o médico intensivista Jorge Salluh, coordenador do estudo e pesquisador do Instituto D’Or.

Publicado na edição de janeiro do Journal of Critical Care, o estudo é parte de um esforço na área da medicina personalizada. No futuro, a ideia é continuar investigando o papel da PCR e de outros biomarcadores na predição de desfechos e como ferramenta para a identificação das melhores estratégias de tratamento para cada paciente. Além do Instituto D’Or e da UFRJ, participaram do trabalho especialistas da Escola de Medicina Nova e do Hospital São Francisco Xavier, ambos em Lisboa (Portugal).