Neurologia do Altruísmo

Há dois veteranos de guerra, ambos com lesões cerebrais penetrantes causadas por projéteis de arma de fogo. Um deles tende a fazer doações em dinheiro quando colocado diante de missões em que acredita; o outro tende a punir as instituições cujas missões não o representam. A resposta para essa diferença de comportamento está em regiões de seu cérebro afetadas pelas lesões que sofreram em combate – para identificar essa relação, cientistas avaliaram as decisões altruístas, isto é, decisões em favor do próximo, em homens que lutaram na Guerra do Vietnã. O estudo foi publicado hoje na revista Brain.

Figura 1. Perfil de lesão cerebral em 94 veteranos de guerra. Cores quentes denotam áreas cerebrais mais acometidas entre os participantes. Cores frias representam áreas menos afetadas (créditos: Moll et al., 2018).

Há pelo menos 150 anos sabemos que lesões cerebrais – ocasionadas, por exemplo, por traumatismos de guerra – podem interferir no comportamento, e que a mudança de comportamento pode tomar uma ou outra direção de acordo com o local da lesão. Mas é extremamente difícil mapear com exatidão a relação entre as regiões lesadas e as mudanças de comportamento, principalmente no que diz respeito aos comportamentos caracteristicamente humanos. Veteranos de guerra constituem excelente modelo para identificar regiões no cérebro envolvidas com decisões altruístas.

O artigo recém-publicado faz parte de uma série de estudos realizados com ex-combatentes norte-americanos da Guerra do Vietnã desde a década de 1980. Foram incluídos na pesquisa 94 homens com lesões cerebrais penetrantes (Fig. 1) e 28 veteranos sem lesão cerebral, que compuseram o grupo controle. Todos os participantes foram submetidos à tomografia computadorizada, método não invasivo que permite mapeamento detalhado das lesões cerebrais.

Além disso, os veteranos realizaram um teste de decisões altruístas a fim de captar traços de sua moralidade e senso de justiça. Nele, cada participante recebia certa quantia e era apresentado a 30 organizações envolvidas em causas sociais, como direito ao aborto, uso de energia nuclear e controle de armas. Diante de cada organização, a pessoa deveria decidir se usava US$ 1 para ajudar a instituição (recompensa), se retirava US$ 1 da organização (punição) ou se guardava o dinheiro para si. Tanto para doar como para retirar dinheiro das instituições, os participantes perdiam uma quantia equivalente em seu próprio montante.

Figura 2. Áreas cerebrais associadas à maior (azul) ou menor (vermelho) punição (créditos: Moll et al., 2018)

Nesse teste, doar ou punir são decisões tipicamente altruístas, pois os participantes precisam abrir mão de um ganho próprio para concretizá-las. “Um grande diferencial do teste é que ele consegue ir na essência da intenção moral, doando ou punindo com base no que cada um considera certo ou errado”, explica Ricardo de Oliveira-Souza, neurologista do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e um dos autores do estudo.

Mapa cerebral do altruísmo

Na análise dos resultados, os cientistas observaram a relação entre a resposta de cada participante no teste de decisão altruísta e o padrão de lesão cerebral. Essa abordagem permitiu identificar que os veteranos que mais realizavam ações de punição possuíam lesões bilaterais no córtex prefrontal dorsomedial. Por outro lado, os que menos puniam possuíam lesões cerebrais localizadas no córtex temporoinsular esquerdo e perisylviano direito (Fig. 2).

As decisões de doação, por sua vez, se associaram a lesões em outras áreas do cérebro. Os veteranos que mais doaram possuíam lesões bilaterais do córtex parietal dorsomedial. Em contraste, a diminuição de doações foi associada a lesões posteriores do hemisfério direito, em especial do sulco temporal superior e do giro temporal médio (fig. 3).

“Nossos achados mostram que existem dois grandes circuitos cerebrais diferentes atuantes quando nos deparamos com situações em que é necessário tomar uma decisão moral: um dos circuitos pune, o outro doa”, avalia de Oliveira-Souza.

Figua 3.Áreas cerebrais associadas à maior (azul) ou menor (vermelho) doação (créditos: Moll et al., 2018).

Estudos anteriores já haviam mostrado a importância dessas mesmas áreas cerebrais para determinar o senso de intencionalidade, moralidade e justiça em relação a uma pessoa ou grupo social. Segundo os autores, os novos resultados reforçam a noção de que decisões altruístas se originam de processos cognitivos complexos que entram em ação quando somos levados a tomar uma decisão moral; por exemplo, se somos a favor ou contra o desarmamento da população civil.

“Esperamos que evidências como esta, sobre os mecanismos cerebrais do altruísmo e comportamentos afins, possam promover os tipos de relações sociais positivas desejadas por famílias de pacientes em reabilitação por diferentes formas de lesões cerebrais traumáticas ou por doenças neurodegenerativas”, aposta o neurocientista Jordan Grafman, do Programa de Pesquisas em Lesão Cerebral, do Shirley Ryan Ability Lab, em Chicago, nos Estados Unidos. Grafman é responsável pelo estudo de traumatismos cranianos em ex-combatentes do Vietnã.

No futuro, a equipe pretende realizar testes com pessoas mais jovens e com mulheres para entender se existem diferenças de sexo ou idade nos circuitos cerebrais da moralidade.

(crédito da imagem :manhhai/Flickr - CC BY 2.0)