Disgenesia do corpo caloso é tema de evento em Salvador

Este foi o primeiro encontro da Associação Brasileira para Desordens do Corpo Caloso. A radiologista Fernanda Tovar Moll, presidente do Instituto D’Or, falou sobre sua pesquisa sobre o tema.

Na segunda-feira (5/11), cientistas e familiares de pacientes com alterações na formação do corpo caloso – região que liga os dois hemisférios cerebrais – estiveram reunidos em Salvador para o I Encontro da Associação Brasileira para Desordens do Corpo Caloso (ABRDCC). O evento,que incluiu palestras, roda de conversa com familiares e atividades para crianças,teve apoio do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Estadual de Feira de Santana.

A radiologista e presidente do IDOR Fernanda Tovar Moll, em companhia da também pesquisadora do IDOR Myriam Monteiro, apresentou evidências científicas sobre as características neurorradiológicase comportamentais da disgenesia do corpo caloso, nome que se dá à má-formação dessa região cerebral. Além de levar conhecimento científico para professores,pais e alunos sobre o transtorno, o encontro serviu para traçar estratégias das próximas atividades do grupo e reunir mais pacientes para os estudos na área. AABRDCC é uma iniciativa brasileira que segue o exemplo do Consórcio Internacional de Pesquisa do Corpo Caloso e Conectividade Cerebral (IRC5, na sigla em inglês). As duas organizações planejam novos encontros locais e um congresso mundial para 2020.

Desde sua criação, em 2010, o IDOR desenvolve pesquisas sobre a disgenesia do corpo caloso, uma condição que pode apresentar quadro clínico bastante variado – incluindo, por exemplo, atraso psicomotor,dificuldades de interação social e transtornos de aprendizagem – e ainda não tem cura nem tratamento específicos. Os sintomas e as dificuldades enfrentados pelos pacientes são, geralmente, tratados com fonoterapia, fisioterapia, terapia ocupacional, psicoterapia e outros recursos.

 

Modelode estudo para a neuroplasticidade

Um aspecto dessa má-formação que atrai o interesse dos neurocientistas é que, na ausência total ou parcial do corpo caloso desde o nascimento, o cérebro dos pacientes com este problema acaba formando caminhos alternativos para a comunicação entre os hemisférios direito e esquerdo, diferentemente do que acontece, por exemplo, com pessoas que precisam extrair cirurgicamente esta área cerebral – uma intervenção realizada em alguns casos de epilepsia. Os pacientes com disgenesia do corpo caloso são,portanto, um exemplo precioso de como o cérebro tem capacidade de se adaptar a situações adversas, fenômeno conhecido como neuroplasticidade.

Quando um indivíduo remove o corpo caloso já na fase adulta, apresenta uma síndrome de desconexão inter-hemisférica, isto é, uma dificuldade de processar tarefas que requeiram o trabalho conjunto dos lados direito e esquerdo do cérebro. Por exemplo, se estiver vendado e pegar um objeto com a mão esquerda, pode ser que o paciente não consiga dizer o nome do objeto, pois, enquanto o tato é controlado pelo hemisfério direito, a fala é controlada pelo hemisfério esquerdo.

Já em pacientes com a disgenesia do corpo caloso – e que, portanto, nunca tiveram essa parte do cérebro completamente funcional –, isso não acontece. Tovar Moll e colaboradores explicaram o porquê em um trabalho publicado em 2014. Com a ajuda da ressonância magnética, os cientistas identificaram nesses pacientes vias cerebrais alternativas para conectar os dois hemisférios. Nesses casos, duas estruturas diminutas conhecidas por fazerem conexões discretas entre os dois lados do cérebro, as comissuras anterior e posterior, abrigam grandes e robustas pontes anômalas.

No mesmo artigo, os autores descrevem que essas pontes ligam áreas cerebrais responsáveis pelo processamento tátil de objetos. Assim, em um teste de reconhecimento de objetos, os pacientes sem o corpo caloso tiveram desempenho semelhante ao de pessoas saudáveis, sugerindo que os feixes alternativos podem, de fato, estar substituindo essa região cerebral.