Beleza, tecnologia e ciência

O palestrante pede um voluntário da plateia para participar de uma demonstração. Todos hesitam, até que alguém se levanta e vai ao encontro dele, que tira de uma pequena bolsa duas cumbucas de metal, ligadas a fios coloridos. Posiciona-as sobre os joelhos da voluntária e pede que repouse as mãos sobre elas. Em seguida, de sua bolsa sai também um coração branco, que pisca em azul e vermelho no ritmo dos batimentos cardíacos da voluntária. A reação geral é de admiração – e parece ser justamente esse o objetivo do trabalho de Alan Macy, que transforma batidas do coração, respiração e outros aspectos da fisiologia humana em experiência sensorial.

Engenheiro biomédico de formação, Macy foi um dos fundadores e é o atual diretor de pesquisa e desenvolvimento da Biopac Systems, empresa californiana voltada à concepção e fabricação de equipamentos biomédicos para pesquisa científica. Está envolvido, por exemplo, na criação de aparelhos para registrar variáveis fisiológicas em exames de ressonância magnética e durante experimentos com realidade virtual. Paralelamente, fundou o Centro de Arte e Tecnologia de Santa Bárbara (SBCast) e se dedica a projetos artísticos em que o funcionamento do corpo humano se mistura a objetos, luzes, sons e experiências táteis. Esteve no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino no início de julho, quando compartilhou alguns de seus projetos mais recentes.

“Trabalhei num projeto de arte em Santa Bárbara que usava pessoas como um dos componentes. Era uma espécie de síntese de alguns indivíduos que se juntavam. A instalação era sensível aos seus estados fisiológicos e criava uma representação artística disso”, conta. Macy está se referindo a Biometric Campfire, uma obra que incluía seis cadeiras dispostas em círculo e uma instalação luminosa no meio. Cada cadeira captava os batimentos cardíacos da pessoa que estivesse sentada e transformava essa informação em pulsos luminosos e sons (veja aqui a instalação em ação). “Estávamos explorando formas de expressar a fisiologia humana”, completa o engenheiro.

Da arte de volta à ciência

Biometric Campfire chamou a atenção do neurocientista Tiago Bortolini, do Instituto D’Or, que contatou Macy para estabelecer uma parceria. A ideia: reproduzir parte da estrutura artística no laboratório, para coletar dados para pesquisas no campo da neurociência.

“Nossa ideia é ver o quanto conseguimos modular a frequência cardíaca de uma pessoa por meio da estimulação vibro-tátil”, revela Bortolini. “Por exemplo, será que uma pessoa que tem o batimento mais rápido vai mudar sua frequência cardíaca se for estimulada com um batimento mais devagar? Outra questão que queremos responder é se duas pessoas, quando sentem os batimentos cardíacos uma da outra, se sentem mais próximas, ainda que possam estar distantes fisicamente – por exemplo, numa interação online.”

Para desenvolver essas pesquisas, Macy e Bortolini instalaram dois conjuntos de sensores e aparelhos para ampliar os fracos sinais elétricos dos batimentos cardíacos a fim de transformá-los em som, luz e vibração. Assim, duas pessoas podem sentar-se e, ao mesmo tempo, sentir na pele, ouvir e ver a representação sensorial de seus próprios batimentos cardíacos ou aqueles da outra pessoa que está participando do experimento.

"O projeto tem muito a ver com a empatia e com como a tecnologia pode ser usada para nos dar uma melhor compreensão da natureza humana”, aposta Macy. O equipamento permite experimentar processos dos quais geralmente não temos consciência. Entre os vários processos fisiológicos passíveis de estudo, o batimento cardíaco é um bom começo porque reage a estímulos externos. Por exemplo, quando tomamos um susto, nosso cérebro processa esse estímulo e o expressa rapidamente no corpo, em sinais como começar a suar, dilatar as pupilas ou acelerar a frequência cardíaca. Só alguns microssegundos depois disso é que temos, de fato, consciência do que aconteceu.

“Queremos usar o novo equipamento para treino de interocepção, isto é, da capacidade que as pessoas têm de perceber a fisiologia do próprio corpo. O objetivo seria fazer com que as pessoas sintam o próprio coração e talvez aprendam a melhorar essa capacidade, que parece estar relacionada a vários desfechos positivos, como a regulação emocional e a empatia”, completa Bortolini

A equipe do Instituto D’Or vai iniciar em breve um estudo piloto com o equipamento. A meta é concluir esta etapa até o final do ano, para, em 2019, começar uma pesquisa maior, que possa responder essas e outras questões levantadas pelos cientistas.