Apetite, impulsividade e recompensas

Pesquisa utiliza métodos de neuroimagem para investigar a relação entre o sistema cerebral de recompensa e o comportamento alimentar de pacientes com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

A busca por prazeres guia o comportamento humano em diversas situações cotidianas, como comer, ganhar dinheiro e fazer sexo. Para entender melhor este fenômeno, a neurocientista Patricia Bado investigou as respostas cerebrais à recompensa e sua relação com o comportamento, em indivíduos saudáveis e com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), doença psiquiátrica que frequentemente está associada a transtornos alimentares, sobrepeso e obesidade. Em sua tese de doutorado, defendida no dia 30 de outubro na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a especialista demonstrou que, tanto nos indivíduos com TDAH quanto naqueles que não possuem o transtorno, o funcionamento alterado do sistema de recompensa está relacionado ao descontrole alimentar. O trabalho foi desenvolvido em parceria com o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR).

De maneira simplificada, o sistema de recompensa funciona em duas fases principais. A primeira é a de busca ou apetitiva, em que o indivíduo procura um comportamento que lhe trará saciedade. Já a segunda é a fase consumatória, na qual, como o nome já diz, o comportamento é consumado. “Existem outros tipos de apetite além dos alimentares, como o sexual e o monetário”, ressalta Bado. Segundo a pesquisadora, as motivações apetitivas guiam o comportamento humano, e a maneira como o sistema de recompensa responde a pistas de recompensa – como um cão que começa a salivar ao ouvir o sino que anuncia a hora do almoço – e à recompensa em si podem ajudar a explicar por que as pessoas se comportam de uma ou outra maneira.

Estudos anteriores já sugeriam que o sistema de recompensa estaria desregulado em pessoas com TDAH. Os dados motivaram Bado a investigar a sensibilidade dessa circuitaria diante de pistas de recompensa, usando, para isso, um equipamento de ressonância magnética, que permite mensurar a atividade cerebral. No trabalho, publicado em 2014 na PLoS One, pacientes com TDAH e indivíduos sem o transtorno – o grupo controle – foram expostos a imagens com símbolos que indicavam grande possibilidade de recompensa financeira futura.

Ao comparar as atividades cerebrais dos dois grupos durante o experimento, os pesquisadores observaram uma diferença marcante: como esperado, o sistema cerebral de recompensa dos indivíduos saudáveis respondia com mais intensidade à pista de que algo bom viria do que à recompensa em si. Por outro lado, nos pacientes com TDAH, isso não ocorria. Áreas cerebrais de recompensa eram insensíveis à pista, e só reagiam quando a recompensa era, de fato, alcançada. Para Bado, isso mostra que este sistema funciona de uma maneira peculiar nesses indivíduos, o que pode ajudar a entender o comportamento por trás do transtorno.

Recompensa e comportamento alimentar

Encorajada pelos resultados do trabalho, Bado decidiu investigar, ainda utilizando o TDAH como modelo de estudo, se as características de impulsividade e descontrole alimentar de cada indivíduo refletem um sistema cerebral de recompensa desregulado. Um novo experimento, semelhante ao anterior, foi realizado com 38 voluntários, sendo 18 portadores do transtorno. Dentro do equipamento de ressonância magnética, os participantes viam pistas que indicavam recompensas monetárias enquanto sua atividade neural era captada.

A análise dos dados revelou que, independentemente de terem sido diagnosticados com TDAH ou não, os participantes com maior descontrole alimentar eram aqueles em que o sistema de recompensa era ativado com mais intensidade em resposta à pista de recompensa. Esses resultados sugerem que o sistema cerebral de recompensa pode reagir de maneira pouco específica, isto é, uma pessoa que tem essa função comprometida em relação a recompensas monetárias também tende a apresentar um comportamento alimentar alterado.

Bado aposta que seu trabalho, orientado pelos neurologistas Jorge Moll e Ricardo de Oliveira, ambos pesquisadores do IDOR, ajuda entender o funcionamento do cérebro humano, com ou sem transtornos. Seus resultados sugerem que, na população em geral, existem pessoas com maior sensibilidade a pistas de recompensa nos estímulos do dia a dia, e isso pode exercer influência sobre o padrão alimentar de cada um.

Esses achados têm relevância ainda maior se considerada a epidemia mundial de obesidade – desde 1975, o número de pessoas obesas triplicou, e estima-se que cerca de 40% da população global estejam acima do peso. “Nossos resultados podem ajudar a construir políticas públicas mais adequadas voltadas para a alimentação, uma vez que pistas de recompensa, incluindo a alimentar, afetam o cérebro e o comportamento”, conclui a cientista.